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Afinal, como a sustentabilidade afeta o seu bolso?

maio 07, 2019
Mais que poupar recursos naturais e evitar tragédias, a prática deve trazer retornos milionários

 

A noite raiava numa quarta-feira comum de outono, na região do Morro do Bumba, em Niterói. Época de fortes tempestades no Rio de Janeiro, o fatídico 07 de abril de 2010 marcou a vida dos moradores de uma favela na região, numa encruzilhada presente até hoje, quase 09 anos passados. A quem não se lembra, mas o trágico desabamento, ocorrido ás 21 horas daquele dia, tirou o sossego do povo que viu também a tragédia tirar a vida de muita gente.

Na manhã do dia seguinte, o Corpo de Bombeiros apontava que pelo menos 200 pessoas ficaram soterradas, sendo 50 casas encobertas pelo deslizamento. Aos sobreviventes, o desamparo de recomeçar a vida – mesmo que essa tarefa não estivesse nos planos. A região vive os mesmos paradigmas e dilemas de outras favelas, mas situa-se num local que foi composto por uma montanha de lixo acumulado por décadas, tornando-a extremamente perigosa.

 

Ao todo foram 46 mortes e 4.700 famílias afetadas, sendo que apenas 1.500 receberam o direito de uma casa, e as demais, a alcunha de um aluguel social no valor de R$400,00 como informou o presidente da Associação de Vítimas do Morro do Bumba, Francisco de Souza. Ocupar um local com enorme quantidade de lixo acumulado – tida como um lixão irregular – e as fortes chuvas foi a razão da tragédia, segundo o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante. Mas o local sendo reconhecido como área de risco, era uma dessas tragédias evitáveis. “A conivência acaba levando a esse tipo de desgraça”, comentou Ophir na ocasião.

Problemas ambientais vem se tornando cada vez mais corriqueiros, – seja por qualquer tipo de resíduo tóxico – o que está afetando todo o ecossistema natural da região em que acontece. O caso de Brumadinho ocorrido em 25 de janeiro de 2019, bem como o caso de Mariana, degradou o meio ambiente em escalas que tardará anos de recuperação. E no Brasil a fora, aterros irregulares de lixo a céu aberto provocado pela grande escala de consumo inconsequente, vem desgastando o solo de modo a permitir deslizamentos, além da poluição atmosférica, bueiros entupidos e ondas litorâneas que levam toneladas de plástico à vida marinha. O que faz pensar sobre o quanto de fato importamos com a saúde da natureza a qual estamos alojados.

“Causas diferentes, tragédias semelhantes”, comenta Kathia Vasconcellos, equiparando as tragédias no Morro do Bumba e Brumadinho. Ela é presidente do Instituto Augusto Carneiro, um programa gaúcho que defende a conservação e a preservação ambiental. Há 30 anos como ativista, Kathia nos recebeu para uma conversa sobre os hábitos sustentáveis que a auxilia na diminuição da quantidade de lixo que produz, em relação ao consumo diário. “Alguém para ser sustentável em qualquer compra tem que pensar: eu preciso? – É escolher produtos com menor pegada ecológica, que utilize menos plásticos e embalagens, e não comprar por impulso. É escolher produtos orgânicos e de origem local.” Se for levado em conta as compras de supermercado, ela comenta que nem sempre escolhe produtos orgânicos quando vai a loja. Mas tem a consciência da pauta que defende. De corredor em corredor, empurrando o carrinho, sua principal escolha por um produto é aquela que tiver o mínimo de embalagem possível, e tem vantagem com ela se for refil. Com ênfase em produtos de vida útil mais longa, Kathia leva suas compras em sacolas biodegradáveis.

A escolha do supermercado é um fato. Somente naquele que se preocupa em poupar água e energia, e que também leva em conta a exigente coleta e reciclagem específica. “Quanto mais convencional o supermercado maior a pegada ecológica. Consumir em supermercados sustentáveis diminui a nossa pegada ecológica pois vai oferecer produtos mais amigáveis ao meio ambiente.” Comenta a ativista.

O supermercado que adere a causa, deverá apresenta maior oferta de produtos certificados e dá destaques a estes, além de prezar pela economia de recursos. Segundo a ambientalista Paola Dall´Occo, professora de ciências biológicas do Mackenzie, o que não tem ajudado a dar resultado nessa perspectiva é o fato da falta de informação que chega ao grande público. No endosso da dificuldade de comunicação, ela explica o que é preciso: “Melhorar o acesso à informação sobre os danos ambientais, psicológicos e sociais causados pelo consumismo exacerbado, bem como a necessidade de formação crítica, tanto na educação básica quanto superior, para impulsionar uma mudança de valores. Por meio de campanhas educativas, bem como promoções para incentivar o consumidor a aderir a práticas mais sustentáveis. ”

Imagens do Google – o incrível mar de lixo no Caribe

 

Na Vila Madalena, bairro nobre de São Paulo, um supermercado vem se empenhando em conscientizar os clientes que o frequenta. A Casa Orgânica tem uma estrutura 100% sustentável, com produtos emprateleirados em caixotes de madeira, sacolas de papel e carrinhos ecológicos. O morador do bairro que vai à loja recebe conteúdos explicativos aplicados em dar exemplo, além da informação estética que percebe do lugar. Apresentada para falar pela Casa Orgânica, Naíla conta da missão atribuída a loja. “Primeiramente precisamos nos conscientizar que não existe jogar fora, pois não existe “fora” do planeta.” Os apaixonados da Casa Orgânica buscam explicações que servem como alertas, mas o resultado só unicamente se dará se cada um aprender a partir de si mesmo. Naíla comenta: “As pessoas têm que aprender a questionar o porquê de um certo produto ser tão barato, qual foi a mão de obra utilizada, o que causa no meio ambiente para que o produto seja produzido. Será que vale a pena?”

Em uma década, o crescimento do lixo no Brasil foi exponencialmente maior que o crescimento populacional. Nos anos de 2003 a 2014, a geração de lixo cresceu 29%, enquanto a taxa de crescimento populacional foi de 6%. Para não pôr em risco as gerações futuras, é momento de levar a princípio o Direito Ambiental com participação das pautas econômicas. A importância consiste em situar a defesa do meio ambiente no mesmo plano de importância que outros valores protegidos pela ordem jurídica. Em amplo debate nos últimos anos, agências, ONGs, estudantes e professores defensores do meio ambiente, listam que este princípio deveria seguir: i) o exercício das atividades produtivas e do direito de propriedade; ii) o crescimento econômico; iii) exploração dos recursos naturais; iv) a garantia do pleno emprego; v) a preservação e a restauração dos ecossistemas e dos processos ecológicos essenciais; vi) a utilização racional dos recursos ambientais; vii) o controle das atividades potencialmente poluidoras e a preservação da diversidade e da integridade do patrimônio genético dos países. Desse conceito que surgiu o princípio do poluidor-pagador, hoje aceito pela moderna economia e gestão de que aquele que utiliza dos recur­sos naturais deverá pagar, de forma integral, pelos impactos que provocar.

Historicamente é notável que os modelos econômicos embasados pelo critério do pensamento “dominium mundi”, que vem desde a idade média, estão longe de contemplar com parcimônia o formato ou limitações dos recursos naturais. Mas por meio de uma política de etapas prioritárias como o ‘5Rs’, é exibido que, estimulando comportamentos como o repensar, recusar, reduzir, reutilizar e em última instância, a opção pelas práticas da reciclagem, é inevitável os ganhos econômicos e ambientais nas áreas energéticas, hídricas, financeiras, produtivas e outras mais envolvidas nos cenários corporativos. Pensando no cenário do setor supermercadista, conversamos com o professor da FVG, Juracy Parente, que abordou também a diminuição no gasto com transporte, se caso os produtos comercializados viessem em embalagens menores. Tem-se o risco, ele alerta, do consumidor entender que “embalagem menor é menos conteúdo”. O que na prática se resolve com comunicação.

O que também entra na pauta da sustentabilidade que pode trazer retorno financeiro é os altos índices de desperdício. A Associação Paulista de Supermercados (Apas) divulgou recentemente os números do setor, que mostra uma inflação assombrosa em produtos de hortifrúti, tendo o tomate alcançado 82% de alternância no seu preço, durante o desempenho do setor em 2018. “Se pensar aonde está a maior perda num supermercado, está no departamento de hortifrútis. 10% do peso do hortifrúti vai para o lixo” argumenta Juracy. E completa: “É uma perda em escala: produtor-transportador-varejista.  Reduzir o desperdício no hortifrúti não significa vender produtos mais maduros para os clientes, mas sim fazer todo um trabalho de gestão, de estoque, de conservação, adequação dos espaços de estocagem para que haja mais acerto nas previsões de compra dos produtos.”

Em métodos pensando no retorno financeiro, reduzir o desperdício e aproveitar o máximo dos resíduos mostra na entrelinha, o dinheiro economizado em escalas que vai desde o setor primário ao terciário, pesando até mesmo no bolso do consumidor. A fusão dos resíduos de vidro, por exemplo, gera uma economia energética 20% menor do que na fundição de areia. Cada tonelada de utilização dos resíduos de vidro economizará 1.200 kg de matéria-prima, 50 % nos fatores hídricos, que reduzirá também em 22 % o consumo de barrilha e 2,5 % de energia. No caso dos resíduos termo plásticos evidencia-se que a cada 100 toneladas de polímeros reciclados, desencadeará a economia nos recursos naturais de 1 tonelada de petróleo, ou a cada 25 toneladas de plástico reciclado poderá desenvolver 20 toneladas de novos produtos de mesma composição e uma economia energética em 50%, tornando a produção mais barata e uma economia financeira em proporções milionárias a longo prazo.

 

Supermercado Casa Orgânica – localizado na Vila Madalena, em São Paulo

 

Sustentabilidade em pauta 

O Pacto Global foi anunciado pelo ex-secretário das Nações Unidas, Kofi Annan, no Fórum Econômico Mundial (Fórum de Davos), na reunião de 31 de janeiro de 1999 e foi oficialmente lançado em 26 de julho de 2000 no escritório da ONU em Nova Iorque. O programa surgiu como plano de melhorar a vida urbana nas cidades de todo o mundo através de uma efetiva ligação entre as empresas, o governo e a sociedade civil. O programa propões 10 princípios a serem seguidos, sendo três pensados nos impactos ambientais: as empresas devem apoiar uma abordagem preventiva aos desafios ambientais; desenvolver iniciativas para promover maior responsabilidade ambiental; e incentivar o desenvolvimento e difusão de tecnologias ambientalmente amigáveis. No Brasil, o programa chegou no mesmo ano em que foi criado, quando o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social conduziu um processo de engajamento das empresas brasileiras. O maior programa mundial em defesa da sustentabilidade abrange todos os setores da sociedade, e tem atualmente no Brasil a participação de 831 signatários que dizem ou que pretendem zelar pelas 10 missões apresentadas pelo Pacto Global.

Nos supermercados de outros países, as redes norte-americanas Walmart e Whole Foods Market são reconhecidas nessa causa. Em campos europeus, a Coop Itália, a britânica Tesco e até em alguns conceitos a francesa Carrefour seguem uma linha sustentável nas suas operações. O Whole Foods Market é uma das empresas que mais crescem, com maior lucratividade, no mercado norte americano, tendo desde o início das suas operações atuação relacionada à saúde e ao meio ambiente. A Coop Itália é líder no varejo supermercadista italiano, com seu público concentrado em defensores do meio ambiente. A Tesco, além de líder do setor no Reino Unido, é um exemplo de que a incorporação de valores ambientais, ainda que recente, pela definição de uma política ambiental e sua disseminação em sua cultura empresarial traz bons resultados rapidamente.

É certo que existe mais redes pelo mundo afora que praticam hábitos sustentáveis, mas ainda não é possível mensurar devido à falta de uma fiscalização mais exigente. O Pacto Global da ONU, por exemplo, apenas oferece táticas para implantação, sem o compromisso de fiscalizar, sendo as próprias redes e distribuidoras responsáveis de divulgar seus relatórios de sustentabilidade. Nem a Abras (Associação Brasileira de Supermercados) e a Apas (Associação Paulista de Supermercados), procurados nesta reportagem possuíam esse dado, mesmo o setor tendo grande impacto no desenvolvimento econômico e nos recursos naturais do país. 

No Brasil, o Grupo Pão de Açúcar, em seu último relatório, mostrou que em 2017 houve melhorias contínuas em sistemas de refrigeração, ar-condicionado e iluminação que estão gerando, em média, 25% de redução de energia elétrica em 487 unidades das redes Extra e Pão de Açúcar e em 5 Centrais de Distribuição de São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Sua usina solar, numa unidade Assaí, em Goiânia, é a maior no país em região urbana, capaz de evitar a emissão de quase 3 mil toneladas de CO2, o equivalente a cerca de 18 mil árvores plantadas e uma economia de R$ 2,6 milhões ao longo de 25 anos. Com a energia gerada, é possível carregar 359 mil celulares, abastecer 757 residências em um ano ou manter 5.300 televisões ligadas por cinco horas no mesmo período. Em medida referente a diminuição de desperdício, 270 toneladas de alimentos foram doados em média a cada mês. Especialistas ambientais reconhecem que o GPA está desenvolvendo várias ações, mas carece de uma política melhor definida e comunicada.

Procurada para tratar do tema, a Apas se disse favorável a supermercados cada vez mais sustentáveis no estado de São Paulo, sendo essa uma tática atual para reter clientes. A associação entende que há um caminho longo a percorrer na mudança de planos econômicos das redes e lojas do estado, mas principalmente na conscientização do consumidor para que volte mais vezes. “Não haverá fidelização se não existir uma relação de confiança entre o supermercadista e o seu cliente. A geração de percepção de autenticidade na comunicação com o consumidor passa por um trabalho prévio de seleção de fornecedores responsáveis sócio ambientalmente, preferencialmente locais, cujos critérios precisam ser públicos e transparentes. A comunicação deve ser feita com base em atitudes reais que gerem valor na percepção do cliente”. Argumenta a associação.

Kathia Vasconcellos comentava sobre conscientização, enquanto pagava suas compras para pegar o caminho de volta para casa. “Lembrando que quanto menor a pegada, mais sustentáveis são as empresas e os consumidores e menor o impacto ambiental” comenta a ativista que também não vê com bons olhos o cenário atual. Em meio a displicência que ocasionaram tragédias recentemente, ela infla o peito e afirma que o meio de vida sustentável não tem haver apenas com retorno financeiro, mas com bom senso. O que discorre da contradição de empresas que se dizem sustentáveis, como a Vale, e que possui uma linha de funcionamento incompatível com o título a qual se referem. “Brumadinho e Mariana, a fome e a miséria e tragédias como os incêndios na boate Kiss em Santa Maria e no CT do Flamengo. Infelizmente é muito grande o número de empresas insustentáveis. Principalmente empresas e supermercados que são gerenciados para dar muito lucro e não para gerar emprego e renda.” Mas Kathia não titubeia em demonstrar esperança, continuando em combate como ativista ambiental, indaga aos bons ouvidos que essa luta vai, uma hora, testar a razão humana.  “Consciência e ação aliada a boas e bem aplicadas leis são a única forma de nos mantermos enquanto sociedade. É necessário dar aquele passo que vai garantir a preservação da espécie humana com dignidade.”

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